Os que fingem ser


Sempre me considerei e fui considerada Poeta-tímida.

Diante de tantos poetas extrovertidos, de alma ou que fingem ser, estes que recitavam seus poemas em cima de mesas, juravam seus amores e temores em forma de poesia a todos que estivessem dispostos a ouvir, declamavam sua arte, as prosas e os poemas em voz alta para que todos escutassem e admirassem o som que cada rima fazia ali, eu me sentia pouco.

Na verdade, eu quase não me sentia. Não me imaginava em uma posição tão alta, em mesas escolares, palcos de teatro ou festas familiares, declamando meus poemas em frente a uma plateia enorme.

Mas, parece que o destino que me espera é diferente do que eu imaginava ser meu fim. Poeta-tímida nada. O palco era meu e eu sempre fui artista nata. Tomei coragem e subi, gritei aos quatro ventos para que escutassem meu pequeno poema de curtos versos. Fingi que eu não era eu, e que a sofia era outra menina que ninguém conhecia.

Gaguejei.

Foi feio, estranho e dolorido. Me senti como uma pequena formiga em frente a uma plateia de tamanduás. Não havia para onde fugir, então fechei meus olhos e fingi. Fingi que eu não era eu, e que minha personagem pedia para que eu gaguejasse. Afinal, em cima de um palco, com as luzes acesas apontadas para ti, tudo pode ser arte.

No fim da apresentação, ouvi palmas de todos os assentos. Ouvi gente sorrindo e chorando, gente gritando viva e gente feliz da vida. E eu? Eu só ria e sorria pensando no desespero que foi apresentar na frente daquelas mesmas pessoas. Quem diria que aquela poeta-tímida saberia declamar como ninguém, que suas prosas tocariam corações e fariam que emoções surgissem nos olhos da plateia?

No final de tudo, continuo sendo considerada poeta-tímida, é meu charme, parte necessária de mim. De vez em quando, ainda gaguejo e finjo que não fui eu. De vez em quase sempre, sinto meu coração bater forte de ansiedade antes de toda apresentação. De vezes e tempos, morro de medo de, durante a cena, tropeçar, errar, cair, chorar, tossir ou espirrar. De vez, entendi que mesmo com todos os erros, perdoáveis ou não, não vivo sem minhas poesias escrever. De vez em vez, no emocionante palco que a vida é, me tornei quem eu mais admirava: os poetas que fingem ser.

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